24h EM BH

Em fevereiro ou março a Marcélia me ligou. Marcélia é uma amiga que fiz no CES/PUC MG, em Juiz de Fora, durante uma fala que eu fiz em uma disciplina sobre literatura mineira. Ela era aluna e orientanda do Luiz Fernando Medeiros e fomos todos almoçar depois do encontro e estamos aí até hoje descobrindo algumas coisas em comum como, por exemplo, que somos da mesma cidade. Em fevereiro ou março Marcélia me ligou e perguntou se lá pra agosto eu poderia ir até Belo Horizonte falar com a turma dela de novo, mas agora a turma do grupo de pesquisa do doutorado. Aceitei na hora porque não sou boba. Quase nunca perco a oportunidade de falar sobre poesia. E agosto, enfim, chegou, e eu fui para BH falar sobre poesia na turma da Marcélia. Além de tudo isso, que já era bom, eu falaria junto com o Lucas Viriato, meu amigo de muito tempo-espaço, e a Ana Elisa Ribeiro, que eu queria muito conhecer por causa de um projeto coordenado por ela em BH, o Leve um livro.

Eu resolvi sair de Juiz de Fora um dia antes da fala. Eu adoro viajar, mas as máquinas que a gente precisa suportar pra viver essa experiência, como um ônibus, por exemplo, me deixam bastante ansiosa. Chegar um dia antes garantiria uma fala com o corpo mais gostosinho. No dia da viagem eu tinha trabalhado até a hora do almoço e não havia comido nada. Cheguei na rodoviária faltando 20 minutos para o horário do embarque, comi rapidamente um salgado de queijo e bebi um copo chá, engoli um comprimido e dormi até Ressaquinha. Depois, lembro de acordar na Cabana da Mantiqueira, cujo slogan é “tradição e modernidade” (embora a cabana fique em Barbacena, que no mapa está antes de Ressaquinha; mas o que é o antes ou depois em um mapa?). Isso me colocou pensativa até chegar em BH (quando os prédios grandes e o Google Maps tomaram toda a minha atenção). Em março, quando fui para Ouro Preto, eu havia parado nessa mesma cabana, mas não havia notado esse slogan. Comecei a pensar uma fala que me colocasse como quem ouve.

Fiz a viagem no mesmo ônibus em que a Marcélia. Na rodoviária de BH, fomos recebidas pela Raquel Guimarães, professora do grupo de pesquisa. Ela nos levou ao hotel, no bairro Nova Suíssa (vi também a grafia Nova Suíça, mas isso fico para um poema). Lucas, que ficaria no mesmo hotel, estava me esperando para o happy hour, isto é, uma caipirinha e duas doses de cachaças ganhadoras de concursos internacionais. Ali, na beira da piscina, vendo a cidade lá de cima; tentando entender aquela geografia difícil. Uma cidade planejada que parecia não ter sentido.


Eu tenho um grande amigo em BH, o Edvaldo Braz. Estudamos juntos no Ensino Médio, há 12 anos, e hoje ele é músico profissional na capital. Quando cheguei, mandei mensagem e combinamos de sair pra jantar. Às 21h, ele passou no hotel e disse que levaria Lucas e eu ao bar de um amigo dele, que tinha um cardápio vegetariano bem maneiro, que pra ele era uma espécie de casa porque a casa era mais que um significante e um bar era mais que bebida. Dia 24 de agosto, na Rua Esmeralda, nos encontramos com um bar chamado Agosto. Por coincidência (ou sorte, ou destino, ou nada disso), Lucas, meu amigo, já conhecia o bar e, de repente, estamos em um lugar que era caro aos meus dois amigos que davam alguma presença aquela cidade quase sem sentido. Eu sinto. Naquele momento falar de poesia fazia algum sentido porque o corpo conhece. Ainda por coincidência (ou sorte, ou destino, ou nada disso), o dono bar se chamava Lucas. Começamos a conversar e a mesa ficou pequena e avistei um adesivo do Plástico Bolha (jornal que o Lucas – o do Rio, não do Prado – edita, um dos motivos que o levaria à PUC/MG na tarde do dia seguinte) que datava 2007, quase 10 anos. Os últimos dez anos que pratiquei alguma atividade poética, todos resumidos na cola de um adesivo que durava 10 anos, dez longos anos resumidos na palma da mão, no mapa de uma cidade, na arquitetura de uma casa, no encontro dos corpos.

Ali bebemos algumas cervejas que se somaram aquelas cachaças campeãs de mais cedo: um estouro) e comemos a melhor comida dos últimos tempos. Comida é um negócio que dá segurança pra gente; forrar o estômago é cobrir, dar beijinho e pedir para sonhar com os anjos. A Joana (que não conheci, mas já amo) é responsável pelas comidas do Butiquim. Escolhemos quiabo na manteiga, tiras de berinjela e batata rústica. Vamos tirar um tempo para falar do quiabo na manteiga? Depois de comer aquele quiabo, fumar um cigarro de palha na porta do bar, ver a cidade sem o mapa; compreender o mapa. O quiabo escorregadio, provado com vários tipos de molhos e pimentas, as vontades da boca, o paladar. Conhecer o mundo pelos sentidos.

Depois fomos fazer uma volta, contornar a cidade, conhecer o olhar da noite que abafa os mapas. Pensava que ao amanhecer restaria tentar compreender alguma marca, alguma travessia comparativa daquela cidade noturna, entre direita e esquerda, e lugares que eu deveria conhecer, que recebem músicos, que vendem bebida, que oferecem cursos, ruas de prostituição. Em BH, ao contrário de JF, a parte alta é a da baixa. Eu falo através de uma linguagem que não contém o que eu quero dizer, mas ainda assim digo. Voltar ao hotel, tomar um banho, ligar o sonho, cedo acordar.

Lucas e eu nos encontramos no café às 09h. Eu comi um pão integral com frutas, queijo, presunto e depois um pouco de queijo minas e Ana Maria Braga e um café. Alguém fala alemão atrás de nós. Eu acho que é alemão. Parece alemão. É alguma coisa que eu não entendo; é um território por onde passo, mas não entendo. Falamos sobre o país e voltamos para o quarto para preparar as nossas falas. Depois nos encontramos no quarto dele para conversar sobre poesia. E falamos. Depois descemos e encontramos a Marcélia no saguão, chamamos um táxi e chegamos a Praça da Federação para almoçar. Eu fiz um prato equilibrado, com bastante salada, peixe, arroz e feijão. Também peguei couve, que acho bom em qualquer ocasião. 

Na PUC/MG chegamos e conversamos. Ouvir sobre os projetos e poder pensar um pouco sobre a produção de poesia foi uma experiência muito interessante e renovadora. Falava sobre as Edições Macondo e O Garibaldi Revista e pensava a poesia a partir dessas plataformas. Perguntas, as pessoas querendo saber sobre o que pensamos sobre a poesia contemporânea, a fatídica pergunta sobre os possíveis aspectos estéticos de unidade entre as poéticas, um café que queima o estômago.


 

 

Eu havia fotografado os livros da Carla Diacov em alguns banheiros de BH, mas resolvi publicar duas fotos especificamente: a do banheiro do hotel e a do banheiro da PUC. O livro dela é um poemário sobre o banheiro como metáfora para uma geografia e um discurso filosófico. (Preparo um texto sobre esse livro que revisei). Na sala da instituição aqueles quadros. Eu pensava que deveria ficar mais uma noite na cidade, ver o dia amanhecer mais uma vez. Mas eu precisa amanhecer em Juiz de Fora, escrever poemas sob encomenda.

Marcélia, Lucas e eu pegamos um táxi, meu estômago fritava. Passamos pela Savassi para deixar o Lucas, que ficaria em BH mais alguns dias, e continuamos nossa jornada até a rodoviária, de onde voltaríamos para a casa (o que poderíamos chamar de casa?). Passamos novamente em frente ao hotel, pudemos vê-lo de outra perspectiva. O taxista diz que a Praça da Savassi é a Praça Diogo de Vasconcelos, mas que ninguém chama a praça por esse nome. O nome como uma coordenada para um encontro geográfico. Abraço o Lucas, não sei quando a gente se vê de novo.

Corremos para a rodoviária. O taxista fala muito enquanto cruzamos a Avenida Afonso Pena. Fala alguma coisa sobre os prédios, mas eu estou olhando para o lado posto, pensando em nomes. Pensando que um prédio e seu nome são uma geografia e que mais cedo eu disse que talvez o poema encontrasse seu leitor, seu destinatário, ou um engano. Meu estômago ainda arde, chegamos a rodoviária. Eu tomo um sal de frutas e voltamos para casa (?).

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TODA A VIDA (OU UM CAMINHO AO BELVEDERE)

Há alguns meses a Fernanda Vivacqua chegou nas Edições Macondo dizendo que havíamos recebido um convite para fazer um sarau em Caxambu, no último dia de um evento sobre reflorestamento e meio ambiente. Eu me senti nostálgica. Caxambu foi a cidade que me proporcionou a primeira viagem sem os pais (na excursão da escola), o primeiro beijo em um menino (na excursão da escola) e a primeira vez que me deixaram manejar uma câmera analógica 36 poses. Seria muito interessante voltar aquilo que construí coletivamente com amigos da escola dezoito anos atrás.

No dia da viagem, um sábado de céu azul em juiz de Fora, me encontrei com Otávio, a Fê e o Paulinho (namorado da Fê e nosso anfitrião caxambuense), na rodoviária da cidade. Eu havia comprado um maço de cigarros na padaria do meu bairro, aprontado a mala em 15 minutos e estava ali pra passar algumas boas horas longe da ansiedade que é a minha vida de jornada quadrupla. Eu sempre tomo um remédio para o estômago antes de viagens, o que a menina-que-vomitou-dentro-do-ônibus-sem-janela-que-abre deveria ter feito!Depois de muito custo e boas risadas chegamos a Caxambu.

Belvedere. O que dizer desse lugar? Segue toda a vida, vira a esquerda, direita e direita. “Segue a vida toda” é uma expressão bastante mineira. Eu me sinto em casa quando ouço alguém falando “a vida toda, uai” e é logo ali, o “ali de mineiro”. No final das contas eu não lembro tudo, mas tenho a sensação de que fazia frio, muito frio. Que voltar ao Parque das Águas e poder fumar um cigarro foi interessante. Que fazer um sarau na Ação Católica bebendo água com excesso de ferro foi divertido. Que conhecer as pessoas que se identificam com aquele lugar e o chamam de casa foi renovador. Que voltar ao lugar de tantos primeiros e sendo aquela também a primeira vez, a única vez daquela forma, daquele jeito, com aquele corpo, aquelas pessoas era uma maneira de descobrir também o imutável.

 

Belvedere como um palácio, uma torre, um miradouro ou um bairro. Uma visão geográfica de como chegar e, enfim, acordar sob o frio que gela as pernas. Colocar os óculos, fumar um cigarro e chegar para o passeio com aquilo que fica. Chegar com tantos amigos e a sensação do frio, que seria precedida pelo calor de estarmos juntos.

A poesia, no final das contas, é como uma viagem entre amigos. Mas cada um guarda frames distintos e na montagem é que criamos um roteiro possível, dentro das mirações da câmera. Talvez aquela com 36 poses que eu aprendi a manejar na primeira viagem a Caxambu, porque ir não é sempre ir da mesma maneira, porque somos outros e é outra a cidade & todos aqueles clichês. Que no final o poema como viagem é um clichê; e voltar é sempre um clichê necessário.

O AMOR ENTRE AS MEDIANERAS (OUTRO OLHAR PARA SÃO PAULO)

Eu moraria em SP. Melhor, eu viveria em São Paulo. Mas antes de chegar a São Paulo voltemos a minha casa: terça-feira, largo tudo por fazer e dou play em Medianeras, filme argentino, do diretor Gustavo Taretto. Não sei se pela minha relação íntima com o castellano e o fascínio pela geografia dos lugares, rapidamente me afeiçoei ao filme.

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Casa da Laura Assis, uma semana antes da viagem

Aqueles encontros (em um completo desencontro) eram fruto da cidade e sua arquitetura, sua disposição, suas coordenadas. Desde a modernidade o homem sofre encontros bruscos com a cidade. Parece não haver espaço suficiente para os dois, que se expandem. A descoordenação de uma cidade é também caos dentro daquele que a habita. Mas há as marcas positivas, os encontros de mão dupla (acontece muito quando alguém viaja, por exemplo). Não pertencemos (ou pertencemos muito) ao lugar e ele nos marca de maneira significativa.

Enquanto o filme me aflorava alguns sentimentos, fui imediatamente levada a uma conversa com o Henrique, um amigo que mora em São Paulo. No mesmo dia, algumas horas antes de eu assistir o filme, conversamos sobre as coisas boas que a cidade proporciona. Falei do céu azul. Do metrô. Da Vila Madá. Do Paraíso. Da Praça Roolsevelt. Do centro. Do Criolo. E todos os encontros afetivos que ambos temos com a cidade. São Paulo é a maior cidade do Brasil e um lugar que revisitei recentemente. Obviamente, pra mim e pro Henrique, a cidade representa muita herança positiva (conhecemos uma parte boa e interessante da cidade, os lugares que funcionam, temos laços pessoais na cidade).

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Até os cafés de SP ecoam | Eco SP 2015

Minha visita a São Paulo foi para ler alguns poemas no sarau que o Eco – Performances Poéticas realizou dentro da programação da exposição Poesia Agora (sob curadoria de Lucas Viriato). Depois saímos todos: Lucas, Luísa, eu, Otávio, Marília, Ana, Anderson, Laura, Larissa, Felipe, Léo, Diego, Cel e tantos outros. Pegar um metrô da Luz à República. Andar com gente bacana entre prédios muito grandes. Ver o dia lindo. Acordar na Vila Madá. Ir de chinelo até o mercado. Comer de madrugada no Villa Grano. Almoçar na Liberdade bebendo guaraná Jesus (enquanto uma senhora do maranhão pergunta pra gente no bairro oriental onde compramos a bebida). Perder o Anderson da estação Portuguesa/Tietê ao Paraíso. Tomar café da manhã com céu azul. Sentir o vento da estação interminável da Fradique Coutinho. Os afetos: as pessoas e a geografia.

A geografia me afeta muitíssimo. As pessoas que dialogam com essa geografia, idem. Gosto do mato e do concreto. Entretanto, dessa vez, entre as medianeras portenhas e paulistanas, como alguém que deita em plena Cultura em um domingo ensolarado na Paulista, a cidade-buquê se mostrou um lindo vaso de flores. As novas São Paulo virão com outras texturas, mas sem perder o sabor. Ou seja, não sou conduzido, conduzo.

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