UMA CAGADA GENTIL

 

[CONTEMPLAÇÕES DA METÁFORA OU CARTA PARA CARLA]

 

Com que prazer me brinda; o gosto mais gostoso de poder ler esses poemas e experimentar primeiro o banheiro da metáfora. O corpo como um lugar de inteligência e o poema como uma necessidade antropológica sem necessidade. Vamos traçar uma rota geográfica para os corpos distinguidos pela bosta.

Eu vivo subtraída pela dificuldade da linguagem (que se impõe como cognação, não como fenômeno), mas quando chegou às Edições Macondo a metáfora mais gentil do mundo gentil, de Carla Diacov, senti que escrever era mais que necessário, antes de tudo um manifesto. Vamos traçar uma rota geográfica para os corpos distinguidos pela bosta.

Eu vivo subtraída pela dificuldade da linguagem (que se impõe como cognação, não como fenômeno), mas quando chegou às Edições Macondo a metáfora mais gentil do mundo, de Carla Diacov, senti que escrever era mais que necessário, antes de tudo um manifesto. Um jogo de repetições e, antes de tudo, metáforas; falar sobre uma coisa falando sobre outra coisa, o poema como uma dobra. As repetições criam ambientes de destruição. As vozes friccionadas no banheiro, sendo e não sendo corpo. O devir pela destruição.

O banheiro é o local de liberdade desse corpo e onde todos se unem: na excreção. Mas também segrega os corpos de classe: rico e pobre. Cagar, como uma identidade. Ainda o quadrado vermelho, o calor fechado. O banheiro me lembra essa menina argentina que estou traduzindo, Alfonsina Brión, que também gesticula com o corpo que vai ao banheiro na ponta dos pés para treinar um discurso. A poesia como um discurso possível dentro das impossibilidades impostas pela linguagem.

O final, irmãozinha, é um vazio (o que é o vazio?) tumultuado, repleto de gentes outras que no final vai dar na gente. O mapa de uma rua é um mapa de uma casa que é um mapa de quem vive. Agora me dou conta de que é impossível terminar essa carta, dizer o que é melhor. Eu não termino um texto desde 2004.

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MULHERES FAZEM // 2015

Normalmente, no final do ano, a gente faz uma retrospectiva, promete coisas diferentes para o próximo ano. Eu quis fazer uma retrospectiva de mulheres que me marcaram nesse 2015. Foi um ano fácil? Não. Mas foi um ano de engajamento e luta. Desejo muita mulher forte na vida de vocês!

Fiz uma lista com as 10 mulheres de 2015. Confira:

01. Anelise Freitas // EU

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Sim, é pouco modesto me inserir nesta lista (principalmente em primeiro lugar), mas, vamos lá: aos 20 anos eu engravidei no meio da primeira graduação, trancando apenas um período (e consegui terminar o curso de Comunicação Social antes da minha turma); meu sonho era fazer Letras, daí passei no vestibular em segundo lugar e, atualmente, faço duas graduações (Português e Espanhol); no meio dessa graduação, eu resolvi tentar o mestrado em Estudos Literários, passei sem bolsa (por isso tenho dois empregos fixos); em abril, junto aos meus amigos da faculdade, assumi a gestão do CA da Letras; esse ano eu criei uma revista de poesia e uma editora (que dão trabalho, não dinheiro). Ou seja, eu faço duas graduações, mestrado, trabalho, milito, faço produção editorial e ainda tento passar o máximo de tempo com meu filho, me desdobro. Eu tenho muito orgulho da minha luta, que não é pouca!

02. Fabíola Barros // A INTERNET

NÃO VOU COLOCAR FOTO DELA AQUI, PORQUE ESSA MULHER JÁ FOI MUITO EXPOSTA.

A Fabíola foi exposta nas redes sociais como a “traidora”, “a esposa vagabunda”, “safada”, “piranha”. Pô, Léo, com tanta piranha, logo a Fabíola, posse do seu melhor amigo? Não tem nada a ver com você Fabíola, tem a ver com dois sacudos que não se perdoam porque tiveram suas fraquezas expostas, você é só um objeto barato. A Fabíola é uma mulher linda e ninguém tem que julgar nada, isso é da intimidade dela (se tá certo ou errado, foda-se). Ser corno não é o problema Cadu, o problema é jogar isso na internet como se a Fabíola fosse o próprio Satanás (principalmente dando uns tapas nela, como se ela merecesse isso porque, afinal de contas, ela é uma vagabunda). Somos todas Fabíola. E ela entra aqui como um símbolo de resistência ao machismo. Fabíolas, uni-vos!

04. Viviane de Sales 

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Nem lembro como conheci a Vivi. Acho que foi por causa da poesia (sempre ela!). Desde então, essa jornalista, que estudou Ciências Sociais na PUC-Rio e criou o Poesia de Esquina, evento literário que acontece na Cidade de Deus, mexe sempre comigo. A garra dessa mulher linda motiva muito e motiva sempre.

04. Anna Muylaert // A SEGUNDA FASE É MUITO MAIS DIFÍCIL

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Já falei da Anna aqui: ela participou da minha infância na TV Cultura. Ela entra nessa lista porque dirigiu o filme nacional mais espetacular e falado no Brasil (e no mundo), mas na estreia teve que lidar com dois outros diretores misóginos. Vai ter mulher diretora, atriz, produtora, escritora (e o que mais nós quisermos ser ou fazer) e se reclamar vai ter o dobro, o triplo.

05. Karol Conka // TOMBAMENTO

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Eu ouvia a Karol desde muito tempo… Daí fui pra Curitiba ano passado e as pessoas me falavam da Karol, que ela era de lá… E em Curitiba eu vi a coisa mais linda da minha vida: um maracatu no Largo da Ordem. Acho que as coisas foram se misturando e eu criei uma super relação afetiva com a cidade e com a Karol. Esse ano, tombando geral, ela lançou o disco É o poder: aceita que dói menos.

06. Think Olga // #EMPODERAMENTO

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Eu tenho os meus problemas com a palavra “empoderamento”, porque ela é muito restrita. Como a patroa empodera a empregada? Como a empresária empodera sua operária? A palavra empoderar não pode vir sozinha, mas é preciso ressaltar o trabalho das meninas do Think Olga, que empodera mulheres através de informação, criou várias campanhas durante o ano e fizeram um bom trabalho sim.

07. Centro Acadêmico Murilo Mendes // NÃO TEM CARIMBO

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Em abril de 2015 assumi, junto com a chapa Pra sair do gabinete, a gestão horizontal do CA da Letras/UFJF. São muitas pessoas, mas as mulheres da chapa são maioria e, melhor, são mulheres de luta! Construímos a semana acadêmica do nosso curso promovendo um debate sobre as opressões, discutindo temas da literatura que raramente estão na grade curricular e trazendo muitas mulheres para debater nas mesas, fizemos a curadoria de uma exposição sobre mulheres. Meninas, sem vocês eu não teria tanta coragem de tocar toda essa loucura que é a minha vida. Partilhamos a luta e esse amor, que é grande, ambos são.

08. Daniela Lima // FEMINISMO E ORGANIZAÇÃO POLÍTICA

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A internet teve um papel muito importante para as mulheres nesse 2015. Criamos hashtags, denunciamos, escrevemos textões, nos organizamos para chegar às ruas. A Daniela foi uma ativista linda, com palavras, sempre, inspiradoras. Eu parei de seguir todo reaça-coxinha e passei a seguir as mulheres-empoderadas. E a Daniela é uma delas, um exemplo dessas muitas mulheres que me fizeram ter muito mais orgulho de mim. Alguém que, para mim, conseguiu unir o teórico e a prática. Fazemos parte de um nicho machista e heteronormativo, a literatura, e eu vi muito escritor ganhador de prêmio promovido por outros homens cis sendo extremamente machista e misógino. Ou seja, é muito bom (e importante) essa representatividade da Daniela.

09. Elza Soares // CORAÇÃO DO MAR

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Quando eu ouvi pela primeira vez a música Formosa, de Vinícius de Moraes, na voz da Elza, eu fiquei alucinada. Essa mulher seria capaz de qualquer coisa com aquela voz divina. Entretanto, não bastou muito tempo para eu perceber como aquela música era extremamente machista (“mulher que nega não sabe não, tem uma coisa de menos no seu coração”, “mulher que nega, nega o que não é para negar”). Gente, fiquei puta com a Elza. Como aquela mulher empoderada, com aquela voz, poderia cantar uma música machista, escrita por um branco, cis, hetero e rico? Daí eu refleti mais uma pouco: aquela mulher, a Elza da Conceição Soares, filha de operário e lavadeira, a gente mais verdadeira desse país, nascida na favela da Moça Bonita (em Padre Miguel), negra, obrigada pelo pai a se casar aos 12 anos, passou por poucas e boas para chegar onde está (DIVA!). Essa mulher sofreu violências, preconceitos, perdeu filho, e ainda ri pra gente, canta com felicidade. Por isso ela é meu exemplo de mulher em 2015 (e pra vida). Esse ano, a Elzinha  nos presenteou com um novo disco (sou velhinha, falo disco mesmo): A MULHER DO FIM DO MUNDO. Sem dúvida, o melhor disco do ano, da Elza, das mulheres. Essa mulher merece a gente beijando os seus pés. Elza, você pode e vai cantar até o fim, vai sim!

10. Gegê // A PRIMEIRA

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A Gegê é a mulher que me ensinou (e ensina) que homem nenhum é melhor que eu e que não devo me envergonhar do meu corpo. Sempre me incentivou a estudar, porque “mulher tem que ter seu dinheiro para não depender de homem” (sem ler a Virgínia Wolf ela já sabia que uma mulher precisa de dinheiro e um teto todo seu). A Gegê se reconstrói, se multiplica, criou três filhos com salário mínimo, dedica seu tempo para os outros (nunca a vi sendo egoísta). Um exemplo, um amor. Além de ser essa mulher incrível ela é minha mãe e a primeira mulher que vi sendo feminista (e ela ainda nem sabia que essa palavra existia).

UM PAÍS DE ESQUERDA

O Brasil é um país de esquerda. Um país de esquerda se constrói com militantes fervorosos, buscando converter uma sociedade essencialmente corrompida em companheiros que, mais tarde, caso exista uma rachadura, será tratado como reacionário e pelego. Mas o Brasil também é um país de direita, que assim como o seu oposto, a esquerda, é construída com militantes fervorosos, buscando manter a corrupção da sociedade.

O Brasil, obviamente, precisa estar um país à esquerda. Porque um país à esquerda pensa o coletivo. Um país à esquerda não oprime negros, mulheres, homossexuais, transexuais. Um país essencialmente à esquerda quebra os grilhões. Existe em consonância, não com abuso. É mais capaz.

O Brasil, obviamente, não está um país à esquerda – mas não digo que o motivo seja SÓ esse – porque depositamos todas as esperanças da esquerda em um partido. Não é possível pensar à esquerda e estar em um partido político. Eu votei no Lula, queria um país melhor, mais à esquerda. Mas agora eu vejo esse sistema de partidos sendo massacrado pelos movimentos sociais que, de maneira mais efetiva, conseguem dar respostas mais igualitárias e pungentes. Enquanto os movimentos sociais conseguem criar uma unicidade e verdade implícita muito maior e mais congruente, os partidos se esfacelam em pequenos amontoados de interesses pessoais. O povo é o social, o partido é um grupo. Alguns são de direita, outros de esquerda. E agora que o PT não responde mais aos anseios de esquerda? O partido político não cria identificação. Buscamos uma nova referência ou recriamos para além de dicotomias?

Precisamos, urgentemente, rever não só as nossas alianças partidárias, mas sociais. Construir nossas (e novas) identidades e agrupamentos, entendendo os espaços como um bem comum. Respeitando a diversidade como um fator constante no mundo e o respeito como fonte inesgotável, como um combustível (trans)nacional. Talvez seja a hora de romper com os partidos, mas não com os movimentos sociais, não com o coletivo, não com a esquerda.