UMA CAGADA GENTIL

 

[CONTEMPLAÇÕES DA METÁFORA OU CARTA PARA CARLA]

 

Com que prazer me brinda; o gosto mais gostoso de poder ler esses poemas e experimentar primeiro o banheiro da metáfora. O corpo como um lugar de inteligência e o poema como uma necessidade antropológica sem necessidade. Vamos traçar uma rota geográfica para os corpos distinguidos pela bosta.

Eu vivo subtraída pela dificuldade da linguagem (que se impõe como cognação, não como fenômeno), mas quando chegou às Edições Macondo a metáfora mais gentil do mundo gentil, de Carla Diacov, senti que escrever era mais que necessário, antes de tudo um manifesto. Vamos traçar uma rota geográfica para os corpos distinguidos pela bosta.

Eu vivo subtraída pela dificuldade da linguagem (que se impõe como cognação, não como fenômeno), mas quando chegou às Edições Macondo a metáfora mais gentil do mundo, de Carla Diacov, senti que escrever era mais que necessário, antes de tudo um manifesto. Um jogo de repetições e, antes de tudo, metáforas; falar sobre uma coisa falando sobre outra coisa, o poema como uma dobra. As repetições criam ambientes de destruição. As vozes friccionadas no banheiro, sendo e não sendo corpo. O devir pela destruição.

O banheiro é o local de liberdade desse corpo e onde todos se unem: na excreção. Mas também segrega os corpos de classe: rico e pobre. Cagar, como uma identidade. Ainda o quadrado vermelho, o calor fechado. O banheiro me lembra essa menina argentina que estou traduzindo, Alfonsina Brión, que também gesticula com o corpo que vai ao banheiro na ponta dos pés para treinar um discurso. A poesia como um discurso possível dentro das impossibilidades impostas pela linguagem.

O final, irmãozinha, é um vazio (o que é o vazio?) tumultuado, repleto de gentes outras que no final vai dar na gente. O mapa de uma rua é um mapa de uma casa que é um mapa de quem vive. Agora me dou conta de que é impossível terminar essa carta, dizer o que é melhor. Eu não termino um texto desde 2004.

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POR QUE ASSISTIR ‘QUE HORAS ELA VOLTA?’

Porque ainda é preciso escrever um texto explicando porque devemos ver um filme nacional dirigido por uma mulher já seria uma boa resposta; porque ainda é preciso escrever um texto explicando porque devemos ver um filme nacional que fala muito intimamente de uma questão social que muitos parecem não ter percebido (ou seria vista grossa?), também. Meio sem jeito por ter que fazer isso em tópico (ou lista), começo:

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1) Anna Muylaert. “Ah, vamos assistir ao filme feito por mulher”. Sim, mas não só! Como roteirista ela participou de, ao menos, dois programas da TV Cultura que, certamente, fizeram parte da minha infância (e, provavemente, da sua): Mundo da Lua e Castelo Rá-tim-bum. E também foi diretora dos longas-metragens Durval Discos e É proibido fumar.

2) Mas você falou que não era só por isso e blau. Ok, não só, mas também. O conceito de sororidade não resolve o problema do machismo, mas é uma ferramenta.

3) Tapa na cara. É bom, faz parte! Você acha aquele amor singelo e fraternal até ver essa dicotomia Jéssica x Fabinho. A classe média que se dói por ver que não pretendemos manter a Val, pois queremos ser Jéssica! Somos! Só não vê quem não quer (ou quem é Fabinho; quem é Fabinho não vê mesmo!). Ou seja, a crítica social é super necessária!

4) Os prêmios. “Ai que futilidade!”. Pode ser, mas isso deu mais notoriedade a um filme muito bacana, nacional, e com temática importantíssima para o contexto atual do nosso país. A Regina Casé ganhou o prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Sundance (EUA) e o filme ganhou o prêmio da Confederação de Cinemas de Arte e Ensaio, na seção Panorama, do Festival de Berlim. Além disso, já foi vendido para mais de 20 países e umas 100 cidades brasileiras já assistiram e foi também indicado pelo MinC para concorrer a vaga entre os finalistas para Melhor Filmes Estrangeiro no Oscar 2016. (Mas sim, tem o fator Globo Filmes!)

5) Experiência estética. É sempre bom ir ao cinema, apreciar um filme. O filme tem uma equipe muito talentosa. Além da diretora e roteirista, Anna Muylaert, sobre a qual eu já falei anteriormente, o filme é produzido por Fabiano Gullane (da produtora Gullane: O bicho de sete cabeças (2001), Carandiru (2003), O ano em que meus pais saíram de férias (2006), entre outros) e estrelado por Regina Casé, Lourenço Mutarelli, Luis Miranda, Theo Werneck, Michel Joelsas e as, para mim desconhecidas, Camila Márdila e Karine Teles.

EXTRA: Muita gente usa como desculpa para não ver o filme o fato de terem filmes tão bons quanto, retratando o “mesmo tema”. Eu acho que, assim como os outros, devemos prestigiar Que horas ela volta? por se tratar de mais um filme bom nacional. Não devemos brigar para saber qual filme é melhor, mas brindar a mais uma produção brasileira muito supimpa!