TODA A VIDA (OU UM CAMINHO AO BELVEDERE)

Há alguns meses a Fernanda Vivacqua chegou nas Edições Macondo dizendo que havíamos recebido um convite para fazer um sarau em Caxambu, no último dia de um evento sobre reflorestamento e meio ambiente. Eu me senti nostálgica. Caxambu foi a cidade que me proporcionou a primeira viagem sem os pais (na excursão da escola), o primeiro beijo em um menino (na excursão da escola) e a primeira vez que me deixaram manejar uma câmera analógica 36 poses. Seria muito interessante voltar aquilo que construí coletivamente com amigos da escola dezoito anos atrás.

No dia da viagem, um sábado de céu azul em juiz de Fora, me encontrei com Otávio, a Fê e o Paulinho (namorado da Fê e nosso anfitrião caxambuense), na rodoviária da cidade. Eu havia comprado um maço de cigarros na padaria do meu bairro, aprontado a mala em 15 minutos e estava ali pra passar algumas boas horas longe da ansiedade que é a minha vida de jornada quadrupla. Eu sempre tomo um remédio para o estômago antes de viagens, o que a menina-que-vomitou-dentro-do-ônibus-sem-janela-que-abre deveria ter feito!Depois de muito custo e boas risadas chegamos a Caxambu.

Belvedere. O que dizer desse lugar? Segue toda a vida, vira a esquerda, direita e direita. “Segue a vida toda” é uma expressão bastante mineira. Eu me sinto em casa quando ouço alguém falando “a vida toda, uai” e é logo ali, o “ali de mineiro”. No final das contas eu não lembro tudo, mas tenho a sensação de que fazia frio, muito frio. Que voltar ao Parque das Águas e poder fumar um cigarro foi interessante. Que fazer um sarau na Ação Católica bebendo água com excesso de ferro foi divertido. Que conhecer as pessoas que se identificam com aquele lugar e o chamam de casa foi renovador. Que voltar ao lugar de tantos primeiros e sendo aquela também a primeira vez, a única vez daquela forma, daquele jeito, com aquele corpo, aquelas pessoas era uma maneira de descobrir também o imutável.

 

Belvedere como um palácio, uma torre, um miradouro ou um bairro. Uma visão geográfica de como chegar e, enfim, acordar sob o frio que gela as pernas. Colocar os óculos, fumar um cigarro e chegar para o passeio com aquilo que fica. Chegar com tantos amigos e a sensação do frio, que seria precedida pelo calor de estarmos juntos.

A poesia, no final das contas, é como uma viagem entre amigos. Mas cada um guarda frames distintos e na montagem é que criamos um roteiro possível, dentro das mirações da câmera. Talvez aquela com 36 poses que eu aprendi a manejar na primeira viagem a Caxambu, porque ir não é sempre ir da mesma maneira, porque somos outros e é outra a cidade & todos aqueles clichês. Que no final o poema como viagem é um clichê; e voltar é sempre um clichê necessário.

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