A INSUSTENTÁVEL AMAMENTAÇÃO

1.Interlúdio teórico para saber como deveria ser

Em 2008, no segundo período da faculdade de Comunicação Social, eu engravidei. Eu tinha 20 anos e nenhuma experiência com crianças (meu sobrinho não podia vir no meu colo que abria o berreiro, por exemplo). Por mais que eu lesse sobre as transformações que o bebê sofria durante as semanas da gestação, eu parecia não entender que a gravidez era um processo de dobra e encontro no outro, isto é, meu corpo não era só um porta-corpo, mas um ser de subjetividade. Eu não preparei minha alimentação, nem minha pele, nem meus seios, nem nada. Meu corpo parecia servir apenas para guardar o meu filho. Infelizmente, é assim a trajetória de muitas outras mães (e desconfio que o mal não esteja na idade, mas na sociedade).

Esta semana é a Semana Mundial de Aleitamento Materno, focada, desde sua origem, n saúde do bebê e seu desenvolvimento. Em 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Unicef criaram um documento sobre amamentação, chamado “Declaração de Innocenti”, cujos objetivos eram quatro: 1) Estabelecer um comitê nacional de coordenação da amamentação; 2) Implementar os “10 passos para o sucesso da amamentação” em todas as maternidades; 3) Implementar o Código Internacional de Comercialização dos Substitutos do Leite Materno e todas as resoluções relevantes da Assembléia Mundial de Saúde; 4) Adotar legislação que proteja a mulher que amamenta no trabalho. No Brasil é o Ministério da saúde que coordena a Semana, promovendo campanhas para que as mulheres não deixem de amamentar suas crias com leite de peito humano.

A cada ano um tema é contemplado e essa foi a vez da “Amamentação: uma chave para o desenvolvimento sustentável”. A mãe é lembrada no quarto objetivo, que fala sobre o bem estar da mãe que amamenta no trabalho, e no quinto passo para o sucesso da amamentação, do objetivo dois, diz sobre “mostrar às mães como amamentar e como manter a lactação”.

Casa Amamenta

2. Como é

Entretanto, só penso em quanto sofrimento podemos nos causar simplesmente pela pressão social de um papel que deve ser cumprido a partir de um estereótipo. Não faço um julgamento de valor, antes de tudo: uma observação a partir de uma mirada de quem se violentou muito como mãe. Acho que se é confortável para a mulher amamentar, ok; que todas deveríamos ter o direito à informação. Quando meu filho nasceu, na sede por amá-lo, botei aquela boquinha no meu seio. A primeira crítica que ouvi foi: “fez cesária, capaz de não ter leite”. Quando meus seios finalmente estavam duros de tanto leite eu não me preocupava em esvaziá-los, pois eu queria que todxs vissem como eu era capaz de dar leite. Com isso e o atrito da boca, meu peito estava sangrando. Eu tinha febre de 40°, não relaxava, não conseguia colocar uma roupa confortável, as visitas não me respeitavam. Passei boa parte do puerpério triste por causa da amamentação.

Eu já não conseguia mais dar o peito para o Augusto – que mamava de minutos em minutos. Lembro de, muitas vezes, provocar outras dores no meu corpo (como chutar um sofá da casa minha mãe) pra poder suportar a amamentação. Um dia, não aguentando aquilo, fui ao médico. Na fila do atendimento, lembro que meus peitos pingavam leite, estavam machucados, sem pele. Daquele dia em diante eu não amamentei. Aprendi que se eu tivesse preparado o meu seio muito daquele sofrimento e trauma teriam sido evitados, mas, infelizmente, todas as vezes que eu era “conscientizada” sobre amamentação em algum atendimento médico era algo do tipo: “dê o peito, é mais saudável não importa o que aconteça”.

Não há protocolo pra “aleitamento saudável para mãe e filhx”, mas uma objetificação do corpo materno como um depósito ou máquina de fazer criança e alimentá-la. A ironia é que o tema da Semana daquele ano de 2008, quando eu pari, havia sido “Amamentação: Participe e Apoie a Mulher!”. Mães, não me entendam mal. Amamentem em público! Amamentem em casa! Amamentem! É muito bom (e saudável pra você e para o bebê), mas em hipótese alguma critique uma mãe que não conseguiu amamentar (elas existem, não é lenda). Se você tem uma lactante no seu convívio, respeite-a e dê suporte. É preciso respeitar a mãe e o bebê, esses seres de subjetividade.

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