POR QUE ASSISTIR ‘QUE HORAS ELA VOLTA?’

Porque ainda é preciso escrever um texto explicando porque devemos ver um filme nacional dirigido por uma mulher já seria uma boa resposta; porque ainda é preciso escrever um texto explicando porque devemos ver um filme nacional que fala muito intimamente de uma questão social que muitos parecem não ter percebido (ou seria vista grossa?), também. Meio sem jeito por ter que fazer isso em tópico (ou lista), começo:

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1) Anna Muylaert. “Ah, vamos assistir ao filme feito por mulher”. Sim, mas não só! Como roteirista ela participou de, ao menos, dois programas da TV Cultura que, certamente, fizeram parte da minha infância (e, provavemente, da sua): Mundo da Lua e Castelo Rá-tim-bum. E também foi diretora dos longas-metragens Durval Discos e É proibido fumar.

2) Mas você falou que não era só por isso e blau. Ok, não só, mas também. O conceito de sororidade não resolve o problema do machismo, mas é uma ferramenta.

3) Tapa na cara. É bom, faz parte! Você acha aquele amor singelo e fraternal até ver essa dicotomia Jéssica x Fabinho. A classe média que se dói por ver que não pretendemos manter a Val, pois queremos ser Jéssica! Somos! Só não vê quem não quer (ou quem é Fabinho; quem é Fabinho não vê mesmo!). Ou seja, a crítica social é super necessária!

4) Os prêmios. “Ai que futilidade!”. Pode ser, mas isso deu mais notoriedade a um filme muito bacana, nacional, e com temática importantíssima para o contexto atual do nosso país. A Regina Casé ganhou o prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Sundance (EUA) e o filme ganhou o prêmio da Confederação de Cinemas de Arte e Ensaio, na seção Panorama, do Festival de Berlim. Além disso, já foi vendido para mais de 20 países e umas 100 cidades brasileiras já assistiram e foi também indicado pelo MinC para concorrer a vaga entre os finalistas para Melhor Filmes Estrangeiro no Oscar 2016. (Mas sim, tem o fator Globo Filmes!)

5) Experiência estética. É sempre bom ir ao cinema, apreciar um filme. O filme tem uma equipe muito talentosa. Além da diretora e roteirista, Anna Muylaert, sobre a qual eu já falei anteriormente, o filme é produzido por Fabiano Gullane (da produtora Gullane: O bicho de sete cabeças (2001), Carandiru (2003), O ano em que meus pais saíram de férias (2006), entre outros) e estrelado por Regina Casé, Lourenço Mutarelli, Luis Miranda, Theo Werneck, Michel Joelsas e as, para mim desconhecidas, Camila Márdila e Karine Teles.

EXTRA: Muita gente usa como desculpa para não ver o filme o fato de terem filmes tão bons quanto, retratando o “mesmo tema”. Eu acho que, assim como os outros, devemos prestigiar Que horas ela volta? por se tratar de mais um filme bom nacional. Não devemos brigar para saber qual filme é melhor, mas brindar a mais uma produção brasileira muito supimpa!

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UM PAÍS DE ESQUERDA

O Brasil é um país de esquerda. Um país de esquerda se constrói com militantes fervorosos, buscando converter uma sociedade essencialmente corrompida em companheiros que, mais tarde, caso exista uma rachadura, será tratado como reacionário e pelego. Mas o Brasil também é um país de direita, que assim como o seu oposto, a esquerda, é construída com militantes fervorosos, buscando manter a corrupção da sociedade.

O Brasil, obviamente, precisa estar um país à esquerda. Porque um país à esquerda pensa o coletivo. Um país à esquerda não oprime negros, mulheres, homossexuais, transexuais. Um país essencialmente à esquerda quebra os grilhões. Existe em consonância, não com abuso. É mais capaz.

O Brasil, obviamente, não está um país à esquerda – mas não digo que o motivo seja SÓ esse – porque depositamos todas as esperanças da esquerda em um partido. Não é possível pensar à esquerda e estar em um partido político. Eu votei no Lula, queria um país melhor, mais à esquerda. Mas agora eu vejo esse sistema de partidos sendo massacrado pelos movimentos sociais que, de maneira mais efetiva, conseguem dar respostas mais igualitárias e pungentes. Enquanto os movimentos sociais conseguem criar uma unicidade e verdade implícita muito maior e mais congruente, os partidos se esfacelam em pequenos amontoados de interesses pessoais. O povo é o social, o partido é um grupo. Alguns são de direita, outros de esquerda. E agora que o PT não responde mais aos anseios de esquerda? O partido político não cria identificação. Buscamos uma nova referência ou recriamos para além de dicotomias?

Precisamos, urgentemente, rever não só as nossas alianças partidárias, mas sociais. Construir nossas (e novas) identidades e agrupamentos, entendendo os espaços como um bem comum. Respeitando a diversidade como um fator constante no mundo e o respeito como fonte inesgotável, como um combustível (trans)nacional. Talvez seja a hora de romper com os partidos, mas não com os movimentos sociais, não com o coletivo, não com a esquerda.