UMA CAGADA GENTIL

 

[CONTEMPLAÇÕES DA METÁFORA OU CARTA PARA CARLA]

 

Com que prazer me brinda; o gosto mais gostoso de poder ler esses poemas e experimentar primeiro o banheiro da metáfora. O corpo como um lugar de inteligência e o poema como uma necessidade antropológica sem necessidade. Vamos traçar uma rota geográfica para os corpos distinguidos pela bosta.

Eu vivo subtraída pela dificuldade da linguagem (que se impõe como cognação, não como fenômeno), mas quando chegou às Edições Macondo a metáfora mais gentil do mundo gentil, de Carla Diacov, senti que escrever era mais que necessário, antes de tudo um manifesto. Vamos traçar uma rota geográfica para os corpos distinguidos pela bosta.

Eu vivo subtraída pela dificuldade da linguagem (que se impõe como cognação, não como fenômeno), mas quando chegou às Edições Macondo a metáfora mais gentil do mundo, de Carla Diacov, senti que escrever era mais que necessário, antes de tudo um manifesto. Um jogo de repetições e, antes de tudo, metáforas; falar sobre uma coisa falando sobre outra coisa, o poema como uma dobra. As repetições criam ambientes de destruição. As vozes friccionadas no banheiro, sendo e não sendo corpo. O devir pela destruição.

O banheiro é o local de liberdade desse corpo e onde todos se unem: na excreção. Mas também segrega os corpos de classe: rico e pobre. Cagar, como uma identidade. Ainda o quadrado vermelho, o calor fechado. O banheiro me lembra essa menina argentina que estou traduzindo, Alfonsina Brión, que também gesticula com o corpo que vai ao banheiro na ponta dos pés para treinar um discurso. A poesia como um discurso possível dentro das impossibilidades impostas pela linguagem.

O final, irmãozinha, é um vazio (o que é o vazio?) tumultuado, repleto de gentes outras que no final vai dar na gente. O mapa de uma rua é um mapa de uma casa que é um mapa de quem vive. Agora me dou conta de que é impossível terminar essa carta, dizer o que é melhor. Eu não termino um texto desde 2004.

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24h EM BH

Em fevereiro ou março a Marcélia me ligou. Marcélia é uma amiga que fiz no CES/PUC MG, em Juiz de Fora, durante uma fala que eu fiz em uma disciplina sobre literatura mineira. Ela era aluna e orientanda do Luiz Fernando Medeiros e fomos todos almoçar depois do encontro e estamos aí até hoje descobrindo algumas coisas em comum como, por exemplo, que somos da mesma cidade. Em fevereiro ou março Marcélia me ligou e perguntou se lá pra agosto eu poderia ir até Belo Horizonte falar com a turma dela de novo, mas agora a turma do grupo de pesquisa do doutorado. Aceitei na hora porque não sou boba. Quase nunca perco a oportunidade de falar sobre poesia. E agosto, enfim, chegou, e eu fui para BH falar sobre poesia na turma da Marcélia. Além de tudo isso, que já era bom, eu falaria junto com o Lucas Viriato, meu amigo de muito tempo-espaço, e a Ana Elisa Ribeiro, que eu queria muito conhecer por causa de um projeto coordenado por ela em BH, o Leve um livro.

Eu resolvi sair de Juiz de Fora um dia antes da fala. Eu adoro viajar, mas as máquinas que a gente precisa suportar pra viver essa experiência, como um ônibus, por exemplo, me deixam bastante ansiosa. Chegar um dia antes garantiria uma fala com o corpo mais gostosinho. No dia da viagem eu tinha trabalhado até a hora do almoço e não havia comido nada. Cheguei na rodoviária faltando 20 minutos para o horário do embarque, comi rapidamente um salgado de queijo e bebi um copo chá, engoli um comprimido e dormi até Ressaquinha. Depois, lembro de acordar na Cabana da Mantiqueira, cujo slogan é “tradição e modernidade” (embora a cabana fique em Barbacena, que no mapa está antes de Ressaquinha; mas o que é o antes ou depois em um mapa?). Isso me colocou pensativa até chegar em BH (quando os prédios grandes e o Google Maps tomaram toda a minha atenção). Em março, quando fui para Ouro Preto, eu havia parado nessa mesma cabana, mas não havia notado esse slogan. Comecei a pensar uma fala que me colocasse como quem ouve.

Fiz a viagem no mesmo ônibus em que a Marcélia. Na rodoviária de BH, fomos recebidas pela Raquel Guimarães, professora do grupo de pesquisa. Ela nos levou ao hotel, no bairro Nova Suíssa (vi também a grafia Nova Suíça, mas isso fico para um poema). Lucas, que ficaria no mesmo hotel, estava me esperando para o happy hour, isto é, uma caipirinha e duas doses de cachaças ganhadoras de concursos internacionais. Ali, na beira da piscina, vendo a cidade lá de cima; tentando entender aquela geografia difícil. Uma cidade planejada que parecia não ter sentido.


Eu tenho um grande amigo em BH, o Edvaldo Braz. Estudamos juntos no Ensino Médio, há 12 anos, e hoje ele é músico profissional na capital. Quando cheguei, mandei mensagem e combinamos de sair pra jantar. Às 21h, ele passou no hotel e disse que levaria Lucas e eu ao bar de um amigo dele, que tinha um cardápio vegetariano bem maneiro, que pra ele era uma espécie de casa porque a casa era mais que um significante e um bar era mais que bebida. Dia 24 de agosto, na Rua Esmeralda, nos encontramos com um bar chamado Agosto. Por coincidência (ou sorte, ou destino, ou nada disso), Lucas, meu amigo, já conhecia o bar e, de repente, estamos em um lugar que era caro aos meus dois amigos que davam alguma presença aquela cidade quase sem sentido. Eu sinto. Naquele momento falar de poesia fazia algum sentido porque o corpo conhece. Ainda por coincidência (ou sorte, ou destino, ou nada disso), o dono bar se chamava Lucas. Começamos a conversar e a mesa ficou pequena e avistei um adesivo do Plástico Bolha (jornal que o Lucas – o do Rio, não do Prado – edita, um dos motivos que o levaria à PUC/MG na tarde do dia seguinte) que datava 2007, quase 10 anos. Os últimos dez anos que pratiquei alguma atividade poética, todos resumidos na cola de um adesivo que durava 10 anos, dez longos anos resumidos na palma da mão, no mapa de uma cidade, na arquitetura de uma casa, no encontro dos corpos.

Ali bebemos algumas cervejas que se somaram aquelas cachaças campeãs de mais cedo: um estouro) e comemos a melhor comida dos últimos tempos. Comida é um negócio que dá segurança pra gente; forrar o estômago é cobrir, dar beijinho e pedir para sonhar com os anjos. A Joana (que não conheci, mas já amo) é responsável pelas comidas do Butiquim. Escolhemos quiabo na manteiga, tiras de berinjela e batata rústica. Vamos tirar um tempo para falar do quiabo na manteiga? Depois de comer aquele quiabo, fumar um cigarro de palha na porta do bar, ver a cidade sem o mapa; compreender o mapa. O quiabo escorregadio, provado com vários tipos de molhos e pimentas, as vontades da boca, o paladar. Conhecer o mundo pelos sentidos.

Depois fomos fazer uma volta, contornar a cidade, conhecer o olhar da noite que abafa os mapas. Pensava que ao amanhecer restaria tentar compreender alguma marca, alguma travessia comparativa daquela cidade noturna, entre direita e esquerda, e lugares que eu deveria conhecer, que recebem músicos, que vendem bebida, que oferecem cursos, ruas de prostituição. Em BH, ao contrário de JF, a parte alta é a da baixa. Eu falo através de uma linguagem que não contém o que eu quero dizer, mas ainda assim digo. Voltar ao hotel, tomar um banho, ligar o sonho, cedo acordar.

Lucas e eu nos encontramos no café às 09h. Eu comi um pão integral com frutas, queijo, presunto e depois um pouco de queijo minas e Ana Maria Braga e um café. Alguém fala alemão atrás de nós. Eu acho que é alemão. Parece alemão. É alguma coisa que eu não entendo; é um território por onde passo, mas não entendo. Falamos sobre o país e voltamos para o quarto para preparar as nossas falas. Depois nos encontramos no quarto dele para conversar sobre poesia. E falamos. Depois descemos e encontramos a Marcélia no saguão, chamamos um táxi e chegamos a Praça da Federação para almoçar. Eu fiz um prato equilibrado, com bastante salada, peixe, arroz e feijão. Também peguei couve, que acho bom em qualquer ocasião. 

Na PUC/MG chegamos e conversamos. Ouvir sobre os projetos e poder pensar um pouco sobre a produção de poesia foi uma experiência muito interessante e renovadora. Falava sobre as Edições Macondo e O Garibaldi Revista e pensava a poesia a partir dessas plataformas. Perguntas, as pessoas querendo saber sobre o que pensamos sobre a poesia contemporânea, a fatídica pergunta sobre os possíveis aspectos estéticos de unidade entre as poéticas, um café que queima o estômago.


 

 

Eu havia fotografado os livros da Carla Diacov em alguns banheiros de BH, mas resolvi publicar duas fotos especificamente: a do banheiro do hotel e a do banheiro da PUC. O livro dela é um poemário sobre o banheiro como metáfora para uma geografia e um discurso filosófico. (Preparo um texto sobre esse livro que revisei). Na sala da instituição aqueles quadros. Eu pensava que deveria ficar mais uma noite na cidade, ver o dia amanhecer mais uma vez. Mas eu precisa amanhecer em Juiz de Fora, escrever poemas sob encomenda.

Marcélia, Lucas e eu pegamos um táxi, meu estômago fritava. Passamos pela Savassi para deixar o Lucas, que ficaria em BH mais alguns dias, e continuamos nossa jornada até a rodoviária, de onde voltaríamos para a casa (o que poderíamos chamar de casa?). Passamos novamente em frente ao hotel, pudemos vê-lo de outra perspectiva. O taxista diz que a Praça da Savassi é a Praça Diogo de Vasconcelos, mas que ninguém chama a praça por esse nome. O nome como uma coordenada para um encontro geográfico. Abraço o Lucas, não sei quando a gente se vê de novo.

Corremos para a rodoviária. O taxista fala muito enquanto cruzamos a Avenida Afonso Pena. Fala alguma coisa sobre os prédios, mas eu estou olhando para o lado posto, pensando em nomes. Pensando que um prédio e seu nome são uma geografia e que mais cedo eu disse que talvez o poema encontrasse seu leitor, seu destinatário, ou um engano. Meu estômago ainda arde, chegamos a rodoviária. Eu tomo um sal de frutas e voltamos para casa (?).

TODA A VIDA (OU UM CAMINHO AO BELVEDERE)

Há alguns meses a Fernanda Vivacqua chegou nas Edições Macondo dizendo que havíamos recebido um convite para fazer um sarau em Caxambu, no último dia de um evento sobre reflorestamento e meio ambiente. Eu me senti nostálgica. Caxambu foi a cidade que me proporcionou a primeira viagem sem os pais (na excursão da escola), o primeiro beijo em um menino (na excursão da escola) e a primeira vez que me deixaram manejar uma câmera analógica 36 poses. Seria muito interessante voltar aquilo que construí coletivamente com amigos da escola dezoito anos atrás.

No dia da viagem, um sábado de céu azul em juiz de Fora, me encontrei com Otávio, a Fê e o Paulinho (namorado da Fê e nosso anfitrião caxambuense), na rodoviária da cidade. Eu havia comprado um maço de cigarros na padaria do meu bairro, aprontado a mala em 15 minutos e estava ali pra passar algumas boas horas longe da ansiedade que é a minha vida de jornada quadrupla. Eu sempre tomo um remédio para o estômago antes de viagens, o que a menina-que-vomitou-dentro-do-ônibus-sem-janela-que-abre deveria ter feito!Depois de muito custo e boas risadas chegamos a Caxambu.

Belvedere. O que dizer desse lugar? Segue toda a vida, vira a esquerda, direita e direita. “Segue a vida toda” é uma expressão bastante mineira. Eu me sinto em casa quando ouço alguém falando “a vida toda, uai” e é logo ali, o “ali de mineiro”. No final das contas eu não lembro tudo, mas tenho a sensação de que fazia frio, muito frio. Que voltar ao Parque das Águas e poder fumar um cigarro foi interessante. Que fazer um sarau na Ação Católica bebendo água com excesso de ferro foi divertido. Que conhecer as pessoas que se identificam com aquele lugar e o chamam de casa foi renovador. Que voltar ao lugar de tantos primeiros e sendo aquela também a primeira vez, a única vez daquela forma, daquele jeito, com aquele corpo, aquelas pessoas era uma maneira de descobrir também o imutável.

 

Belvedere como um palácio, uma torre, um miradouro ou um bairro. Uma visão geográfica de como chegar e, enfim, acordar sob o frio que gela as pernas. Colocar os óculos, fumar um cigarro e chegar para o passeio com aquilo que fica. Chegar com tantos amigos e a sensação do frio, que seria precedida pelo calor de estarmos juntos.

A poesia, no final das contas, é como uma viagem entre amigos. Mas cada um guarda frames distintos e na montagem é que criamos um roteiro possível, dentro das mirações da câmera. Talvez aquela com 36 poses que eu aprendi a manejar na primeira viagem a Caxambu, porque ir não é sempre ir da mesma maneira, porque somos outros e é outra a cidade & todos aqueles clichês. Que no final o poema como viagem é um clichê; e voltar é sempre um clichê necessário.

A INSUSTENTÁVEL AMAMENTAÇÃO

1.Interlúdio teórico para saber como deveria ser

Em 2008, no segundo período da faculdade de Comunicação Social, eu engravidei. Eu tinha 20 anos e nenhuma experiência com crianças (meu sobrinho não podia vir no meu colo que abria o berreiro, por exemplo). Por mais que eu lesse sobre as transformações que o bebê sofria durante as semanas da gestação, eu parecia não entender que a gravidez era um processo de dobra e encontro no outro, isto é, meu corpo não era só um porta-corpo, mas um ser de subjetividade. Eu não preparei minha alimentação, nem minha pele, nem meus seios, nem nada. Meu corpo parecia servir apenas para guardar o meu filho. Infelizmente, é assim a trajetória de muitas outras mães (e desconfio que o mal não esteja na idade, mas na sociedade).

Esta semana é a Semana Mundial de Aleitamento Materno, focada, desde sua origem, n saúde do bebê e seu desenvolvimento. Em 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Unicef criaram um documento sobre amamentação, chamado “Declaração de Innocenti”, cujos objetivos eram quatro: 1) Estabelecer um comitê nacional de coordenação da amamentação; 2) Implementar os “10 passos para o sucesso da amamentação” em todas as maternidades; 3) Implementar o Código Internacional de Comercialização dos Substitutos do Leite Materno e todas as resoluções relevantes da Assembléia Mundial de Saúde; 4) Adotar legislação que proteja a mulher que amamenta no trabalho. No Brasil é o Ministério da saúde que coordena a Semana, promovendo campanhas para que as mulheres não deixem de amamentar suas crias com leite de peito humano.

A cada ano um tema é contemplado e essa foi a vez da “Amamentação: uma chave para o desenvolvimento sustentável”. A mãe é lembrada no quarto objetivo, que fala sobre o bem estar da mãe que amamenta no trabalho, e no quinto passo para o sucesso da amamentação, do objetivo dois, diz sobre “mostrar às mães como amamentar e como manter a lactação”.

Casa Amamenta

2. Como é

Entretanto, só penso em quanto sofrimento podemos nos causar simplesmente pela pressão social de um papel que deve ser cumprido a partir de um estereótipo. Não faço um julgamento de valor, antes de tudo: uma observação a partir de uma mirada de quem se violentou muito como mãe. Acho que se é confortável para a mulher amamentar, ok; que todas deveríamos ter o direito à informação. Quando meu filho nasceu, na sede por amá-lo, botei aquela boquinha no meu seio. A primeira crítica que ouvi foi: “fez cesária, capaz de não ter leite”. Quando meus seios finalmente estavam duros de tanto leite eu não me preocupava em esvaziá-los, pois eu queria que todxs vissem como eu era capaz de dar leite. Com isso e o atrito da boca, meu peito estava sangrando. Eu tinha febre de 40°, não relaxava, não conseguia colocar uma roupa confortável, as visitas não me respeitavam. Passei boa parte do puerpério triste por causa da amamentação.

Eu já não conseguia mais dar o peito para o Augusto – que mamava de minutos em minutos. Lembro de, muitas vezes, provocar outras dores no meu corpo (como chutar um sofá da casa minha mãe) pra poder suportar a amamentação. Um dia, não aguentando aquilo, fui ao médico. Na fila do atendimento, lembro que meus peitos pingavam leite, estavam machucados, sem pele. Daquele dia em diante eu não amamentei. Aprendi que se eu tivesse preparado o meu seio muito daquele sofrimento e trauma teriam sido evitados, mas, infelizmente, todas as vezes que eu era “conscientizada” sobre amamentação em algum atendimento médico era algo do tipo: “dê o peito, é mais saudável não importa o que aconteça”.

Não há protocolo pra “aleitamento saudável para mãe e filhx”, mas uma objetificação do corpo materno como um depósito ou máquina de fazer criança e alimentá-la. A ironia é que o tema da Semana daquele ano de 2008, quando eu pari, havia sido “Amamentação: Participe e Apoie a Mulher!”. Mães, não me entendam mal. Amamentem em público! Amamentem em casa! Amamentem! É muito bom (e saudável pra você e para o bebê), mas em hipótese alguma critique uma mãe que não conseguiu amamentar (elas existem, não é lenda). Se você tem uma lactante no seu convívio, respeite-a e dê suporte. É preciso respeitar a mãe e o bebê, esses seres de subjetividade.

MULHERES FAZEM // 2015

Normalmente, no final do ano, a gente faz uma retrospectiva, promete coisas diferentes para o próximo ano. Eu quis fazer uma retrospectiva de mulheres que me marcaram nesse 2015. Foi um ano fácil? Não. Mas foi um ano de engajamento e luta. Desejo muita mulher forte na vida de vocês!

Fiz uma lista com as 10 mulheres de 2015. Confira:

01. Anelise Freitas // EU

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Sim, é pouco modesto me inserir nesta lista (principalmente em primeiro lugar), mas, vamos lá: aos 20 anos eu engravidei no meio da primeira graduação, trancando apenas um período (e consegui terminar o curso de Comunicação Social antes da minha turma); meu sonho era fazer Letras, daí passei no vestibular em segundo lugar e, atualmente, faço duas graduações (Português e Espanhol); no meio dessa graduação, eu resolvi tentar o mestrado em Estudos Literários, passei sem bolsa (por isso tenho dois empregos fixos); em abril, junto aos meus amigos da faculdade, assumi a gestão do CA da Letras; esse ano eu criei uma revista de poesia e uma editora (que dão trabalho, não dinheiro). Ou seja, eu faço duas graduações, mestrado, trabalho, milito, faço produção editorial e ainda tento passar o máximo de tempo com meu filho, me desdobro. Eu tenho muito orgulho da minha luta, que não é pouca!

02. Fabíola Barros // A INTERNET

NÃO VOU COLOCAR FOTO DELA AQUI, PORQUE ESSA MULHER JÁ FOI MUITO EXPOSTA.

A Fabíola foi exposta nas redes sociais como a “traidora”, “a esposa vagabunda”, “safada”, “piranha”. Pô, Léo, com tanta piranha, logo a Fabíola, posse do seu melhor amigo? Não tem nada a ver com você Fabíola, tem a ver com dois sacudos que não se perdoam porque tiveram suas fraquezas expostas, você é só um objeto barato. A Fabíola é uma mulher linda e ninguém tem que julgar nada, isso é da intimidade dela (se tá certo ou errado, foda-se). Ser corno não é o problema Cadu, o problema é jogar isso na internet como se a Fabíola fosse o próprio Satanás (principalmente dando uns tapas nela, como se ela merecesse isso porque, afinal de contas, ela é uma vagabunda). Somos todas Fabíola. E ela entra aqui como um símbolo de resistência ao machismo. Fabíolas, uni-vos!

04. Viviane de Sales 

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Nem lembro como conheci a Vivi. Acho que foi por causa da poesia (sempre ela!). Desde então, essa jornalista, que estudou Ciências Sociais na PUC-Rio e criou o Poesia de Esquina, evento literário que acontece na Cidade de Deus, mexe sempre comigo. A garra dessa mulher linda motiva muito e motiva sempre.

04. Anna Muylaert // A SEGUNDA FASE É MUITO MAIS DIFÍCIL

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Já falei da Anna aqui: ela participou da minha infância na TV Cultura. Ela entra nessa lista porque dirigiu o filme nacional mais espetacular e falado no Brasil (e no mundo), mas na estreia teve que lidar com dois outros diretores misóginos. Vai ter mulher diretora, atriz, produtora, escritora (e o que mais nós quisermos ser ou fazer) e se reclamar vai ter o dobro, o triplo.

05. Karol Conka // TOMBAMENTO

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Eu ouvia a Karol desde muito tempo… Daí fui pra Curitiba ano passado e as pessoas me falavam da Karol, que ela era de lá… E em Curitiba eu vi a coisa mais linda da minha vida: um maracatu no Largo da Ordem. Acho que as coisas foram se misturando e eu criei uma super relação afetiva com a cidade e com a Karol. Esse ano, tombando geral, ela lançou o disco É o poder: aceita que dói menos.

06. Think Olga // #EMPODERAMENTO

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Eu tenho os meus problemas com a palavra “empoderamento”, porque ela é muito restrita. Como a patroa empodera a empregada? Como a empresária empodera sua operária? A palavra empoderar não pode vir sozinha, mas é preciso ressaltar o trabalho das meninas do Think Olga, que empodera mulheres através de informação, criou várias campanhas durante o ano e fizeram um bom trabalho sim.

07. Centro Acadêmico Murilo Mendes // NÃO TEM CARIMBO

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Em abril de 2015 assumi, junto com a chapa Pra sair do gabinete, a gestão horizontal do CA da Letras/UFJF. São muitas pessoas, mas as mulheres da chapa são maioria e, melhor, são mulheres de luta! Construímos a semana acadêmica do nosso curso promovendo um debate sobre as opressões, discutindo temas da literatura que raramente estão na grade curricular e trazendo muitas mulheres para debater nas mesas, fizemos a curadoria de uma exposição sobre mulheres. Meninas, sem vocês eu não teria tanta coragem de tocar toda essa loucura que é a minha vida. Partilhamos a luta e esse amor, que é grande, ambos são.

08. Daniela Lima // FEMINISMO E ORGANIZAÇÃO POLÍTICA

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A internet teve um papel muito importante para as mulheres nesse 2015. Criamos hashtags, denunciamos, escrevemos textões, nos organizamos para chegar às ruas. A Daniela foi uma ativista linda, com palavras, sempre, inspiradoras. Eu parei de seguir todo reaça-coxinha e passei a seguir as mulheres-empoderadas. E a Daniela é uma delas, um exemplo dessas muitas mulheres que me fizeram ter muito mais orgulho de mim. Alguém que, para mim, conseguiu unir o teórico e a prática. Fazemos parte de um nicho machista e heteronormativo, a literatura, e eu vi muito escritor ganhador de prêmio promovido por outros homens cis sendo extremamente machista e misógino. Ou seja, é muito bom (e importante) essa representatividade da Daniela.

09. Elza Soares // CORAÇÃO DO MAR

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Quando eu ouvi pela primeira vez a música Formosa, de Vinícius de Moraes, na voz da Elza, eu fiquei alucinada. Essa mulher seria capaz de qualquer coisa com aquela voz divina. Entretanto, não bastou muito tempo para eu perceber como aquela música era extremamente machista (“mulher que nega não sabe não, tem uma coisa de menos no seu coração”, “mulher que nega, nega o que não é para negar”). Gente, fiquei puta com a Elza. Como aquela mulher empoderada, com aquela voz, poderia cantar uma música machista, escrita por um branco, cis, hetero e rico? Daí eu refleti mais uma pouco: aquela mulher, a Elza da Conceição Soares, filha de operário e lavadeira, a gente mais verdadeira desse país, nascida na favela da Moça Bonita (em Padre Miguel), negra, obrigada pelo pai a se casar aos 12 anos, passou por poucas e boas para chegar onde está (DIVA!). Essa mulher sofreu violências, preconceitos, perdeu filho, e ainda ri pra gente, canta com felicidade. Por isso ela é meu exemplo de mulher em 2015 (e pra vida). Esse ano, a Elzinha  nos presenteou com um novo disco (sou velhinha, falo disco mesmo): A MULHER DO FIM DO MUNDO. Sem dúvida, o melhor disco do ano, da Elza, das mulheres. Essa mulher merece a gente beijando os seus pés. Elza, você pode e vai cantar até o fim, vai sim!

10. Gegê // A PRIMEIRA

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A Gegê é a mulher que me ensinou (e ensina) que homem nenhum é melhor que eu e que não devo me envergonhar do meu corpo. Sempre me incentivou a estudar, porque “mulher tem que ter seu dinheiro para não depender de homem” (sem ler a Virgínia Wolf ela já sabia que uma mulher precisa de dinheiro e um teto todo seu). A Gegê se reconstrói, se multiplica, criou três filhos com salário mínimo, dedica seu tempo para os outros (nunca a vi sendo egoísta). Um exemplo, um amor. Além de ser essa mulher incrível ela é minha mãe e a primeira mulher que vi sendo feminista (e ela ainda nem sabia que essa palavra existia).

POR QUE ASSISTIR ‘QUE HORAS ELA VOLTA?’

Porque ainda é preciso escrever um texto explicando porque devemos ver um filme nacional dirigido por uma mulher já seria uma boa resposta; porque ainda é preciso escrever um texto explicando porque devemos ver um filme nacional que fala muito intimamente de uma questão social que muitos parecem não ter percebido (ou seria vista grossa?), também. Meio sem jeito por ter que fazer isso em tópico (ou lista), começo:

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1) Anna Muylaert. “Ah, vamos assistir ao filme feito por mulher”. Sim, mas não só! Como roteirista ela participou de, ao menos, dois programas da TV Cultura que, certamente, fizeram parte da minha infância (e, provavemente, da sua): Mundo da Lua e Castelo Rá-tim-bum. E também foi diretora dos longas-metragens Durval Discos e É proibido fumar.

2) Mas você falou que não era só por isso e blau. Ok, não só, mas também. O conceito de sororidade não resolve o problema do machismo, mas é uma ferramenta.

3) Tapa na cara. É bom, faz parte! Você acha aquele amor singelo e fraternal até ver essa dicotomia Jéssica x Fabinho. A classe média que se dói por ver que não pretendemos manter a Val, pois queremos ser Jéssica! Somos! Só não vê quem não quer (ou quem é Fabinho; quem é Fabinho não vê mesmo!). Ou seja, a crítica social é super necessária!

4) Os prêmios. “Ai que futilidade!”. Pode ser, mas isso deu mais notoriedade a um filme muito bacana, nacional, e com temática importantíssima para o contexto atual do nosso país. A Regina Casé ganhou o prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Sundance (EUA) e o filme ganhou o prêmio da Confederação de Cinemas de Arte e Ensaio, na seção Panorama, do Festival de Berlim. Além disso, já foi vendido para mais de 20 países e umas 100 cidades brasileiras já assistiram e foi também indicado pelo MinC para concorrer a vaga entre os finalistas para Melhor Filmes Estrangeiro no Oscar 2016. (Mas sim, tem o fator Globo Filmes!)

5) Experiência estética. É sempre bom ir ao cinema, apreciar um filme. O filme tem uma equipe muito talentosa. Além da diretora e roteirista, Anna Muylaert, sobre a qual eu já falei anteriormente, o filme é produzido por Fabiano Gullane (da produtora Gullane: O bicho de sete cabeças (2001), Carandiru (2003), O ano em que meus pais saíram de férias (2006), entre outros) e estrelado por Regina Casé, Lourenço Mutarelli, Luis Miranda, Theo Werneck, Michel Joelsas e as, para mim desconhecidas, Camila Márdila e Karine Teles.

EXTRA: Muita gente usa como desculpa para não ver o filme o fato de terem filmes tão bons quanto, retratando o “mesmo tema”. Eu acho que, assim como os outros, devemos prestigiar Que horas ela volta? por se tratar de mais um filme bom nacional. Não devemos brigar para saber qual filme é melhor, mas brindar a mais uma produção brasileira muito supimpa!

UM PAÍS DE ESQUERDA

O Brasil é um país de esquerda. Um país de esquerda se constrói com militantes fervorosos, buscando converter uma sociedade essencialmente corrompida em companheiros que, mais tarde, caso exista uma rachadura, será tratado como reacionário e pelego. Mas o Brasil também é um país de direita, que assim como o seu oposto, a esquerda, é construída com militantes fervorosos, buscando manter a corrupção da sociedade.

O Brasil, obviamente, precisa estar um país à esquerda. Porque um país à esquerda pensa o coletivo. Um país à esquerda não oprime negros, mulheres, homossexuais, transexuais. Um país essencialmente à esquerda quebra os grilhões. Existe em consonância, não com abuso. É mais capaz.

O Brasil, obviamente, não está um país à esquerda – mas não digo que o motivo seja SÓ esse – porque depositamos todas as esperanças da esquerda em um partido. Não é possível pensar à esquerda e estar em um partido político. Eu votei no Lula, queria um país melhor, mais à esquerda. Mas agora eu vejo esse sistema de partidos sendo massacrado pelos movimentos sociais que, de maneira mais efetiva, conseguem dar respostas mais igualitárias e pungentes. Enquanto os movimentos sociais conseguem criar uma unicidade e verdade implícita muito maior e mais congruente, os partidos se esfacelam em pequenos amontoados de interesses pessoais. O povo é o social, o partido é um grupo. Alguns são de direita, outros de esquerda. E agora que o PT não responde mais aos anseios de esquerda? O partido político não cria identificação. Buscamos uma nova referência ou recriamos para além de dicotomias?

Precisamos, urgentemente, rever não só as nossas alianças partidárias, mas sociais. Construir nossas (e novas) identidades e agrupamentos, entendendo os espaços como um bem comum. Respeitando a diversidade como um fator constante no mundo e o respeito como fonte inesgotável, como um combustível (trans)nacional. Talvez seja a hora de romper com os partidos, mas não com os movimentos sociais, não com o coletivo, não com a esquerda.

O AMOR ENTRE AS MEDIANERAS (OUTRO OLHAR PARA SÃO PAULO)

Eu moraria em SP. Melhor, eu viveria em São Paulo. Mas antes de chegar a São Paulo voltemos a minha casa: terça-feira, largo tudo por fazer e dou play em Medianeras, filme argentino, do diretor Gustavo Taretto. Não sei se pela minha relação íntima com o castellano e o fascínio pela geografia dos lugares, rapidamente me afeiçoei ao filme.

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Casa da Laura Assis, uma semana antes da viagem

Aqueles encontros (em um completo desencontro) eram fruto da cidade e sua arquitetura, sua disposição, suas coordenadas. Desde a modernidade o homem sofre encontros bruscos com a cidade. Parece não haver espaço suficiente para os dois, que se expandem. A descoordenação de uma cidade é também caos dentro daquele que a habita. Mas há as marcas positivas, os encontros de mão dupla (acontece muito quando alguém viaja, por exemplo). Não pertencemos (ou pertencemos muito) ao lugar e ele nos marca de maneira significativa.

Enquanto o filme me aflorava alguns sentimentos, fui imediatamente levada a uma conversa com o Henrique, um amigo que mora em São Paulo. No mesmo dia, algumas horas antes de eu assistir o filme, conversamos sobre as coisas boas que a cidade proporciona. Falei do céu azul. Do metrô. Da Vila Madá. Do Paraíso. Da Praça Roolsevelt. Do centro. Do Criolo. E todos os encontros afetivos que ambos temos com a cidade. São Paulo é a maior cidade do Brasil e um lugar que revisitei recentemente. Obviamente, pra mim e pro Henrique, a cidade representa muita herança positiva (conhecemos uma parte boa e interessante da cidade, os lugares que funcionam, temos laços pessoais na cidade).

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Até os cafés de SP ecoam | Eco SP 2015

Minha visita a São Paulo foi para ler alguns poemas no sarau que o Eco – Performances Poéticas realizou dentro da programação da exposição Poesia Agora (sob curadoria de Lucas Viriato). Depois saímos todos: Lucas, Luísa, eu, Otávio, Marília, Ana, Anderson, Laura, Larissa, Felipe, Léo, Diego, Cel e tantos outros. Pegar um metrô da Luz à República. Andar com gente bacana entre prédios muito grandes. Ver o dia lindo. Acordar na Vila Madá. Ir de chinelo até o mercado. Comer de madrugada no Villa Grano. Almoçar na Liberdade bebendo guaraná Jesus (enquanto uma senhora do maranhão pergunta pra gente no bairro oriental onde compramos a bebida). Perder o Anderson da estação Portuguesa/Tietê ao Paraíso. Tomar café da manhã com céu azul. Sentir o vento da estação interminável da Fradique Coutinho. Os afetos: as pessoas e a geografia.

A geografia me afeta muitíssimo. As pessoas que dialogam com essa geografia, idem. Gosto do mato e do concreto. Entretanto, dessa vez, entre as medianeras portenhas e paulistanas, como alguém que deita em plena Cultura em um domingo ensolarado na Paulista, a cidade-buquê se mostrou um lindo vaso de flores. As novas São Paulo virão com outras texturas, mas sem perder o sabor. Ou seja, não sou conduzido, conduzo.

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SOBRE A CASA

Eu sempre tive blogue. Desde antes de ser moda ter blogue. Ou falar que tem blogue. Os blogues começam na minha vida quando eu tinha 14 anos; quando eu comecei a escrever. Eu tinha fixação por escrever sobre assuntos do cotidiano, através de uma perspectiva política e filosófica. Depois comecei a publicar sobre poesia, feminismo, beleza gorda, maternidade. E quando meu primeiro livro saiu, não publiquei mais em blogues. Eu já estava com 24 anos, e 10 apenas de publicações na rede. Talvez por cansaço ou por apatia.

Hoje, aos 27 (atualizem conforme o ano, nasci em dezembro de 1987), eu volto ao espaço do blogue. Por quê? Porque esse é o espaço mais aberto que eu conheço dentro da internet e sempre nesse espaço eu pude exprimir melhor o que eu queria dizer, sem medinhos. Não havia obrigação de ser erudita ou escrever como quem redige um artigo científico. Eu recuperara o lirismo necessário para escrever um roteiro. O blogue me tornara uma pessoa mais confiante. Voltei.

Nesse espaço pretendo mostrar como é chegar à idade do cabalístico 27 e como, há quase um ano, eu decidi modificar algumas coisas na minha vida e tomar mais as rédeas. Corpo e mente. Aqui tem tudo misturado porque a Anelise (que sou eu) é a mistura da poesia, culinária, viagens, astrologia, maternidade, festas, saraus, literatura, escrita, docência, corpo e produção de presença, comunicação & etc. Aqui tem eu no trabalho e na vida, que é uma coisa só. Tem tudo que eu amo. Talvez um diário que é esse o gênero menor da literatura da minha vida.

SOBRE A CASA

A Casa sempre me despertou algo maior que um significante. Mas foi quando eu percebi que nenhum lugar no mundo seria capaz de suprir o que chamamos de casa que o termo passou a despertar mais e mais. Aqui você encontra o portfólio da vida que dá tempo de postar, mas ele chega como uma casa de experiência – que é o próprio corpo e a mente. Uma casa empírica. Casa Empiria.